Publicado por: sosortomolecular | 5 de Setembro de 2013

Medicina: ciência e arte que não pode ser rezada pelos pobres de espírito.

Por Waldir Pedrosa Amorim

          Corajosa e correta a decisão assumida pelo governo brasileiro, através do Ministério da Saúde, de tornar  real a já antiga urgência de prover com médicos as populações desassistidas de atenção à saúde básica.

         Meu profundo desejo é que neste universo sejam incluídos enfermeiros, sanitaristas com função de atuação regional, nutricionistas, odontólogos generalistas e preventivistas, psiquiatras, fisioterapeutas, educadores físicos, farmacêuticos e técnicos de enfermagem.

         Enxergo nos reclamos das ruas dois fatores que alimentam e legitimam o poder do povo e de governantes bem intencionados:

         O primeiro, relacionado ao povo, é o de assumir a si o protagonismo de iniciativas que tenham a força de instrumentos de pressão claros até conseguirem a solução de atentados sociais e humanos graves. Especialmente aqueles ditos e repisados como sem solução. O segundo, relativo aos governantes, é o de saber empoderar-se, aproveitar as causas justas advindas das ruas e torna-las realidade num tempo o mais breve possível.

         Governantes bem intencionados, em uma democracia, na maior parte das vezes, são pessoas que lidam com conflitos de interesse de toda a ordem. Uns oriundos de quem representa o povo nas casas legislativas, várias demandas de segmentos de interesse corporativo ou empresarial, representação da sociedade civil, sindicatos, confederações, conselhos e assim por diante. Além dos Ministérios e dos lobistas que atuam nas distintas esferas, quer legislativas, ministerial e judiciária. Daí dizer-se que um bom governante é aquele que está próximo do povo e da vontade popular. Sendo as coincidências com o desejo das ruas a melhor delas.

         No caso em questão, um dos recados que saíram das ruas foi a necessidade de mais médicos para atender a demanda dos serviços existentes para abranger populações integralmente desassistidas em lugarejos por onde nunca passou um médico. Isto resumido refere-se  à melhoria das condições dos serviços da atenção primária; sua modernização; aumento do número de leitos e salas de cirurgia e vários outros procedimentos que são executados nos Hospitais Universitários e de referência,  nos ambulatórios onde se encontram os médicos especialistas.

              As ruas  balançaram todo o país,  fizeram questionar os valores da nossa história e do nosso rumo num governo democrático; exigiram qualidade digna para que se viva com transporte, saúde, educação, segurança. Foi o endosso, além do aval que o povo deu nas eleições presidenciais, à presidente Dilma. Um endosso condicional, é bem verdade. Arremato dizendo que o emponderamento que a presidente soube assumir, poderá ser significativo para o país e redundar no verdadeiro cumprimento da constituição de 1988, que reza ser a saúde um direito de todos e um dever do estado.

         Portanto, muitas lições haveremos de tirar da nossa má distribuição de profissionais de saúde.

         A primeira delas é nossa gratidão e bom acolhimento a profissionais que, deixaram seus países de origem para vir trabalhar de forma científica e humanitária nas nossas áreas sem médicos. Isto posto, é forçoso admitirmos que desta população desassistida muitos já morreram vítimas de desassistência, outros sobrevivem cronicamente e nem ao menos temos condições de traçarmos um perfil nosológico e nosográfico característico da realidade.

         Por isso é difícil e vergonhoso entendermos e nos questionarmos porque só a categoria médica se opõe de forma tão chula, deselegante, organizada e agressiva contra seus colegas recém-chegados para prestar uma assistência humanitária. Quantos de nós médicos nos propusemos a nos engajar nesse trabalho?

         É hora de pararmos de mentir, caluniar, sofismar e expor o preconceito racial e o xenofobismo estreito, que não cabe nos dias atuais ser expressado por uma categoria formadora de opinião, universitária e que lida com a saúde dos outros.

         A verdade é bem outra. Somos sabedores das inúmeras tentativas frustras de interiorizar as ações de saúde, pela dificuldade de fixar profissionais médicos e de outras áreas em cidades longínquas, distantes de centros urbanos maiores.

         Temos consciência de muitas opções de migração de médicos recém-formados, portanto sem residência médica, sem habilidade profissional para longínquas áreas em que a circulação da riqueza é maior e grande a carência. Situações essas propícias à prática autodidata da tentativa erro, da terapêutica baseada muitas vezes no bulário da indústria farmacêutica e nos parcos e livrescos conhecimentos de toco-ginecologia, pequenas cirurgias e rudimentos de traumato-ortopedia e pediatria. Esses silenciam, se capitalizam e algumas vezes se aperfeiçoam e retornam para a cidade de origem ou cidade maior. Quando não se tornam prefeitos e fazendeiros.

         Apenas uma parcela dos médicos brasileiros consegue cumprir um programa de residência médica; a maioria recusa o trabalho nas regiões carentes, onde existem populações que nunca foram atendidas. O pano de fundo da questão resume-se a que nos maiores centros, ainda é possível ao médico trabalhar intensamente em cerca de 2 a 3 empregos, tirar um plantão, ter o trabalho intermediado por um plano de saúde, uma cooperativa e faturar cerca de 25 a 30 mil reais mensais, quando não, muito mais em determinadas especialidades, sem abrir mão da expectativa de melhor educar os filhos, ficar nas proximidades de um centro culturalmente mais avançado e diversificado. E nada temos contra o médico que ganha seu dinheiro honestamente.

         Entretanto, alguns imaginam-se usurpados nas vagas de trabalho futuro e sofismam o quanto podem para defender a maldita reserva de mercado, creio que sentindo-se  ameaçados e até por possuírem  entranhado o medo da perda do poder.

         Que lógica absurda justifica adiar a doença do outro que mata e a saúde do outro que se extingue, para assegurar o futuro de uma categoria que virá a ser.

         Vozes vindas de todas as partes desse mundo médico, que sonha-se aristocrático, mas que de fato é obreiro e assalariado, esquecem seu compromisso de construir um debate que envolva as necessidades da população. Enterraram o sonho liberal;  vendem a mais valia às seguradoras, planos de saúde, cooperativas e se perderam por desaprender a lutar contra seus atravessadores de forma unida. Por isso furam as greves, ocupam o espaço do colega que não trabalha a preço vil e saem traindo por qualquer dinheiro seus próprios pares. Sim, aqueles que estão de ombro a ombro, não os estrangeiros. Ademais ainda se tornam subservientes muitas vezes às indústrias de equipamentos, órteses, próteses, químicas, farmacêuticas.

         Profissionais que não aprenderam a exigir um tratamento isonômico para o seu trabalho assalariado, público ou privado. Que não sabem sequer se organizar para usar de sua força social e conquistar um plano nacional de carreira.

         Especialmente, que jamais foram às ruas em defesa da população e que sequer uma de suas entidades se propuseram a discutir, negociar, assessorar uma questão que pela vez primeira na história do Brasil, é colocada com tanta importância, urgência, determinação e que vai ao encontro dos anseios dos que devem ser seus mais fortes aliados: a população.

         Contive-me o quanto pude para não emitir juízo de valores quanto às manifestações de incivilidade, arrogância, individualismo, desumanidade, preconceito e  profunda ignorância do contexto do direito dos povos à saúde, expresso quer pelo individual, quer pelo coletivo dessa corporação médica brasileira, da qual faço parte, reprovo e me envergonho de suas atitudes frente aos médicos estrangeiros, mormente os cubanos, que aqui chegam para minorar a falta de assistência aos nossos concidadãos.

         Em parte, o preconceito é filho da ignorância, mas temos assistido à expressão da maldade, individualismo, do ser retrógrado, habituado a um mundo mesquinho e pequeno, que se encerra no seu vaso sanitário. Um médico inculto, bitolado, pouco conhecedor e praticante do humanismo inerente ao lema que trafega em seus convites e placas de conclusão de curso: sedarem dolorem opus divinum est.

         Sou médico, e até digo que tornei-me ultra especializado em Hepatologia. No entanto, procurei jamais distanciar-me de duas vertentes do conhecimento médico, a medicina preventiva e social e a abordagem sociopsicossomática na relação médico paciente.

         Por força das minhas atividades docentes, coordenei o curso de medicina, um programa de reforma curricular e de interiorização de estudantes da área de saúde junto a OPAS, UFPB, MS, Secretarias estaduais e municipais de saúde.

          Com o doente, com os alunos e com a população, vivenciei realidades distintas e enriquecedoras. Se alguém é devedor de algo numa trajetória de vida, eu devo à medicina,  aos meus pacientes e meus alunos bens imateriais que não poderei jamais pagar.

         Há que ser revisto o conteúdo que a escola médica passa aos alunos. Mas antes é urgente  que a criança, o adolescente, o jovem adulto, o jovem médico e professor tomem contato com o mundo através da leitura, do cinema, da música, da história, da filosofia e que ande por ruas onde a vida acontece; sobretudo pensem nos problemas e soluções para o seu país.

 Waldir Pedrosa Amorim é médico, ex-professor de medicina da UFPB, escritor e poeta.


Responses

  1. É DESSE TIPO DE MÉDICO QUE O BRASIL PRECISA O SENHOR DEVERIA SER INDICADO PARA SER O MINISTRO DA SAÚDE.
    VISÃO AMPLA DO SISTEMA E CONHECEDORA.
    REALMENTE PARABÉNS E VIDA LONGA AO SENHOR POIS NÃO TENHO DUVIDA QUE SALVARA MUITAS VIDAS !

    • Boa tarde José Roberto
      O Brasil não precisa de um grande ministro de saúde não, precisa de um grande ministro de educação, quando se fala em capacitação técnica, como podemos ter esta capacitação se não temos uma boa base, tendo mais educação básica, precisamos de menos médicos. Um abraço.
      Prof. Paulo Edson


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