Publicado por: sosortomolecular | 7 de Fevereiro de 2017

A medicina moderna vai alcançar seu objetivo?

AS CRIANÇAS aprendem desde cedo: para conseguir apanhar uma fruta num galho muito alto, têm de subir nos ombros de um amigo. Na medicina, ocorre algo similar. Os pesquisadores têm chegado cada vez mais alto no que se refere a descobertas, porque se apoiam nos ombros de médicos destacados do passado.

Entre esses antigos profissionais estão homens famosos, como Hipócrates e Pasteur, além de nomes menos conhecidos, como Vesálio e William Morton. O que a medicina moderna deve a eles?

Na antiguidade, a arte da cura em geral não era uma atividade científica, mas envolvia superstição e rituais religiosos. O livro The Epic of Medicine (O Épico da Medicina), editado pelo Dr. Felix Marti-Ibañez, diz: “Para combater as doenças. . , os mesopotâmios recorriam a uma medicina médico-religiosa, pois criam que a doença era uma punição dos deuses.” As raízes da medicina egípcia, que surgiu logo depois, também se encontravam mergulhadas na religião. Assim, desde o início, quem curava era encarado com um senso de admiração religiosa.

No livro The Clay Pedestal (O Pedestal de Barro), o Dr. Thomas A. Preston comenta: “Muitas crenças dos antigos deixaram marcas na prática da medicina, marcas essas que sobrevivem até hoje. Uma dessas crenças era a de que a doença estava fora do controle do paciente e que apenas por meio do poder mágico do médico é que havia esperança de recuperação.”

Lançadas as bases

Com o tempo, porém, a medicina foi adotando um enfoque cada vez mais científico. O mais destacado médico antigo que usou métodos científicos foi Hipócrates. Ele nasceu por volta de 460 AEC na ilha grega de Cós e é considerado por muitos como o pai da medicina ocidental. Hipócrates lançou a base para tratar a medicina de forma racional. Ele rejeitou a noção de que a doença era punição dos deuses, afirmando que tinha causas naturais. A epilepsia, por exemplo, foi por muito tempo chamada de doença sagrada porque se achava que só podia ser curada pelos deuses. Mas Hipócrates escreveu: “Com respeito à doença chamada sagrada: não me parece ser nem mais divina nem mais sagrada do que qualquer outra doença, mas tem uma causa natural.” Hipócrates também foi, pelo que se sabe, o primeiro médico a observar os sintomas de várias doenças e anotá-los para consulta futura.

Séculos mais tarde, Galeno, médico grego nascido em 129 EC, também fez inovadoras pesquisas científicas. Baseado na dissecação de humanos e animais, Galeno preparou um compêndio de anatomia que foi usado pelos médicos durante séculos. André Vesálio, nascido em Bruxelas em 1514, escreveu o livro Sobre a Organização do Corpo Humano. Esse livro sofreu oposição, porque contradisse muitas das conclusões de Galeno, mas lançou a base da anatomia moderna. Segundo o livro Die Grossen (Os Grandes), Vesálio tornou-se assim “um dos mais importantes pesquisadores médicos de todos os povos em todos os tempos”.

As teorias de Galeno sobre o coração e a circulação do sangue também foram rejeitadas com o tempo.* O médico inglês William Harvey passou anos dissecando animais e aves. Ele observou a função das válvulas cardíacas, mediu o volume de sangue em cada cavidade do coração e calculou a quantidade de sangue no corpo. Harvey publicou suas descobertas em 1628 num livro chamado Sobre o Movimento do Coração e do Sangue nos Animais. Ele sofreu críticas, oposição, ataques e insultos. Mas sua obra foi um marco da medicina: havia sido descoberto o sistema circulatório humano!

Barbeiros e cirurgiões

Obtinham-se grandes avanços também nas cirurgias. Durante a Idade Média, muitas vezes eram os barbeiros que faziam cirurgias. Não admira, então, que alguns digam que o pai da cirurgia moderna foi Ambroise Paré, um francês do século 16. Ele foi um pioneiro da cirurgia que também era barbeiro e trabalhou para quatro reis da França. Paré também inventou vários instrumentos cirúrgicos.

Um dos maiores problemas que os cirurgiões do século 19 enfrentavam era a incapacidade de aliviar a dor durante a cirurgia. Mas em 1846 um cirurgião-dentista chamado William Morton foi um dos primeiros a usar anestésicos em cirurgias, o que acabou se tornando comum.

Em 1895, quando fazia experiências com eletricidade, o físico alemão Wilhelm Röntgen detectou raios que atravessavam a carne, mas não os ossos. Ele não sabia a origem dos raios, de modo que os chamou de raios X, nome que continua a ser usado em português. (Em alemão, são chamados de Röntgenstrahlen.) Segundo o livro Die Großen Deutschen (Grandes Alemães), Röntgen disse à esposa: “As pessoas vão dizer: ‘Röntgen enlouqueceu.’” De fato, alguns disseram isso. Mas sua descoberta revolucionou o trabalho dos cirurgiões. A partir de então, eles podiam ver dentro do corpo do paciente sem precisar abri-lo.

Vitórias contra as doenças

Ao longo das eras, doenças infecciosas, como a varíola, vez após vez trouxeram epidemias, terror e morte. Al-Razi (Rhazés ou Razes), um persa do nono século, considerado por muitos o maior médico do mundo islâmico daquele tempo, escreveu a primeira descrição exata, do ponto de vista médico, da varíola. Mas foi séculos mais tarde que um médico britânico, Edward Jenner, descobriu uma maneira de curá-la. Jenner notou que, depois de contrair vacínia (varíola bovina) — uma enfermidade inofensiva —, a pessoa ficava imune à varíola. Com base nessa observação, Jenner desenvolveu uma vacina contra a varíola usando material tirado de ulcerações de vacínia. Isso aconteceu em 1796. Como se deu com outros pioneiros antes dele, Jenner foi criticado e sofreu oposição. Mas sua descoberta do processo de vacinação por fim levou à erradicação daquela doença e forneceu à medicina uma nova arma poderosa.

Louis Pasteur, um francês, usou a vacinação para combater a raiva e o antraz. Ele também provou que os micróbios têm um papel-chave em causar doenças. Em 1882, Robert Koch identificou o bacilo que causa a tuberculose, descrita por um historiador como “a maior assassina entre as doenças do século 19”. Cerca de um ano depois, Koch identificou o germe causador da cólera. A revista Life diz: “O trabalho de Pasteur e de Koch fez surgir a ciência da microbiologia e resultou em avanços nos campos de imunologia, saneamento e higiene que contribuíram mais para aumentar a expectativa de vida humana do que qualquer outro avanço científico dos últimos 1.000 anos.”

A medicina do século 20

No início do século 20, a medicina se apoiava nos ombros desses e de outros médicos brilhantes. Desde então, obtiveram-se avanços médicos com rapidez estonteante: insulina para o diabetes, quimioterapia contra o câncer, tratamento hormonal para problemas glandulares, antibióticos contra a tuberculose, cloroquina para certos tipos de malária e diálise para doenças renais, além de cirurgias de coração aberto e transplantes de órgãos, só para mencionar alguns.

Mas agora que o século 21 se inicia, será que a medicina está perto de atingir o objetivo de garantir “um nível aceitável de saúde para todos os povos do mundo”?

Um objetivo inalcançável?

As crianças sabem que não conseguirão alcançar todas as frutas, mesmo que subam nos ombros de um amigo. Algumas das frutas mais gostosas ficam muito altas, no topo da árvore. De forma similar, a medicina tem avançado gradativamente, alcançando objetivos cada vez mais elevados. Mas a meta mais desejada — saúde para todos — ainda está fora do alcance, no topo da árvore.

Assim, em 1998, um relatório da Comissão Européia afirmou que “os europeus nunca viveram tanto e com tanta saúde”, mas acrescentou: “Uma pessoa em cada cinco morrerá prematuramente antes dos 65 anos. O câncer será responsável por uns 40% dessas mortes, as doenças cardiovasculares, por outros 30%%. . . É preciso fornecer proteção melhor contra as novas ameaças à saúde.”

A revista alemã Gesundheit, dedicada a assuntos de saúde, noticiou em novembro de 1998 que doenças infecciosas, como a cólera e a tuberculose, são uma ameaça cada vez maior. Por quê? Os antibióticos “estão perdendo a eficácia. Cada vez mais bactérias são resistentes a pelo menos um medicamento comum; de fato, muitas delas resistem a vários remédios”. Não são apenas as doenças antigas que voltam a atacar, mas surgiram novas doenças, como a AIDS. A publicação farmacêutica alemã Statistics’97 nos lembra: “Até agora, não há nenhum modo de tratar as causas de dois terços de todas as doenças conhecidas — cerca de 20.000.”

A terapia genética será a resposta?

É verdade que continuam a surgir tratamentos inovadores. Por exemplo, muitos acham que a engenharia genética será a chave para melhorar a saúde. Em resultado de pesquisas feitas nos Estados Unidos na década de 90 por médicos como o Dr. W. French Anderson, a terapia genética foi descrita como “o mais popular entre os novos campos de pesquisa médica”. O livro Heilen mit Genen (Curar com Genes) declara que, com a terapia genética, “a ciência médica talvez esteja no limiar de uma descoberta pioneira. Isso se dá especialmente com o tratamento de doenças até hoje incuráveis”.

Os cientistas esperam com o tempo ser capazes de curar doenças genéticas congênitas injetando genes corretivos no paciente. Até células perigosas, como as cancerosas, talvez possam ser obrigadas a se autodestruir. Já é possível fazer exames genéticos que identificam a predisposição da pessoa a certas doenças. Alguns dizem que a farmacogenômica — alterar os medicamentos para ajustá-los ao perfil genético do paciente — será o próximo passo. Um pesquisador destacado afirmou que algum dia os médicos serão capazes de “diagnosticar a doença dos pacientes e dar-lhes os exatos fragmentos de material genético necessários para curá-los”.

Mas nem todos estão convencidos de que a terapia genética vá fornecer a cura milagrosa do futuro. De fato, segundo pesquisas, muitas pessoas talvez nem queiram que seu perfil genético seja analisado. Outros temem que a terapia genética seja uma interferência perigosa na natureza.

Só o tempo dirá se a engenharia genética ou outros métodos de alta tecnologia médica cumprirão suas grandes promessas. Mas é melhor não ser otimista demais. O livro The Clay Pedestal descreve um ciclo bem conhecido: “Surge uma nova terapia, que é divulgada em conferências médicas e em revistas especializadas. Seus criadores viram celebridades entre seus pares e a imprensa saúda o avanço. Depois de um período de euforia e de depoimentos bem documentados em favor do tratamento maravilhoso, surge gradativamente a desilusão, que dura de alguns meses a várias décadas. Daí, descobre-se um novo remédio que, quase da noite para o dia, substitui o anterior, que então é prontamente abandonado como inútil.” De fato, muitos remédios que a maioria dos médicos abandonou por considerar ineficazes eram o tratamento-padrão até relativamente pouco tempo atrás.

Embora os médicos hoje não tenham o status semidivino que tinham no passado, algumas pessoas ainda têm a tendência de lhes atribuir poderes quase sobrenaturais e de imaginar que é inevitável que a ciência por fim cure todos os males da humanidade. Mas a realidade está bem longe disso. No livro How and Why We Age (Como e Por Que Envelhecemos), o Dr. Leonard Hayflick diz: “Em 1900, 75% das pessoas nos Estados Unidos morriam antes de atingir os 65 anos. Hoje, essa estatística é quase o contrário: cerca de 70% morrem depois dos 65 anos.” O que causou esse notável aumento na expectativa de vida? Hayflick explica que isso “se deu basicamente devido à redução na taxa de mortalidade dos recém-nascidos”. Suponhamos que a medicina conseguisse eliminar as principais causas de morte dos idosos: doenças cardíacas, câncer e derrames. Será que isso seria o mesmo que conseguir imortalidade? Dificilmente. O Dr. Hayflick menciona que, mesmo assim, “a maioria das pessoas viveria até mais ou menos os cem anos”. E acrescenta: “Esses centenários ainda não seriam imortais. Mas do que morreriam? Eles simplesmente ficariam cada vez mais fracos até morrer.”

Assim, apesar dos esforços da ciência médica, a eliminação da morte continua fora do alcance da medicina. Por quê? Será que a meta de se conseguir saúde para todos é um sonho inalcançável?

[Nota(s) de rodapé]

Segundo a Enciclopédia Mirador, Galeno achava que o fígado transformava o alimento digerido em sangue, que então fluía para o resto do corpo e era absorvido.

“Muitas crenças dos antigos deixaram marcas na prática da medicina, marcas essas que sobrevivem até hoje.” — The Clay Pedestal

Hipócrates, Galeno e Vesálio lançaram a base da medicina moderna

Ilha de Cós, Grécia

Cortesia de National Library of Medicine

  1. Vesálio em xilogravura de Jan Steven von Kalkar tirada deMeyer’s Encyclopedic Lexicon

Ambroise Paré foi um barbeiro e cirurgião pioneiro que trabalhou para quatro reis da França

 

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